domingo, 29 de setembro de 2019

OUTONO em POESIA

CANÇÃO do OUTONO

No entardecer da terra,
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sonho
Na lívida solidão.

Soergue as folhas,e pousa
As folhas volve e revolve
Esvai-se ainda outra vez.
Mas a folha não repousa
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei,morri.o;
E mesmo o que hoje sou
Amanhã direi: quem dera
Volver a sê.lo! mais frio.
O vento vago voltou.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

FARÓIS DISTANTES

FARÓIS DISTANTES


Faróis distantes,
De luz subitamente tão acesa,
De noite e ausência tão rapidamente volvida,
Na noite, no convés, que consequências aflitas!
Mágoa última dos despedidos,
Ficção de pensar...
Faróis distantes...
Incerteza da vida...
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido...
Faróis distantes...
Avida de nada serve...
Pensar na vida de nada serve...
Pensar de pensar na vida de nada serve...
Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande.
Faróis distantes...



                  Fernando Pessoa